
Coisa interessante é visitar casa de vó no interior. Tudo parece cena de novela das seis. Comida pronta no fogão, esperando ansiosamente para o almoço. Vizinhos que se conhecem, fofocam e conversam. Parentes e amigos que chegam sem telefonar, entram sem se anunciar e ainda sim são recebidos com um sincero sorriso de alegria. Mais interessante ainda é ouvir o carro de som anunciando a missa de sétimo dia do “seu Diquin de Souza” ou para o enterro da “Dona Maria do Chiquito” por toda a cidade, lembrando é claro, que o velório acontece em casa, e o corpo é levado em cortejo ao cemitério pelas ruas da cidade.
Fazia alguns meses que não aparecia para visitar as matriarcas. Desta vez cheguei à cidade em dia de comemoração. Festa de Reinado e tem suas características próprias. É um tributo a Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Santa Efigênia. Festa bonita. De verdade. Em uma cidade de pessoas Católicas Apóstólicas Romanas (ou apenas católicos “postólicos”, como dizem por aqui) tal festa mobiliza a todos. Mas o que é verdadeiramente importante nisso tudo para mim, não é a religião, mas a tradição cultural. Em raros lugares vemos a festa como deve ser.
O congado é em Minas Gerais patrimônio turístico e cultural. Como tal, tem se mostrado um tanto comercial também. É sempre noticia de telejornal grupos de congado dançando e tocando fora de época. Perfeitamente ensaiado e gravado apenas e tão somente para ser exibido na tevê. Dança e música sem qualquer conteúdo folclórico e cultural verdadeiro, genuíno. Apenas uma atração jornalistica para o povo da Capital ( tão distante dessas coisas de interior) saber que ainda existem cultos e culturas, povo, passado e tradição. Isso sim patrimônio (independentemente de fé) de cultura, de força e de gente.
Mas deixa eu contar um pouco da festa. Mas vou usar a palavra Reinado ou invés de Congado. Dentre os grupos de reinado, existem os chamados de “Corte” e os "congas". Um grupo chamado Moçambique é o mais importante congo. Sua função é louvar São Benedito e Nossa Senhora do Rosário. Ele é composto comumente de negros e levam amarrados nas canelas os chocalhos que conduzem o batuque. Este corte é o responsável por buscar o Rei e a Raínha do Reinado, responsáveis por carregar as coroas. Não sou católica. Sequer sou cristã e admito sinceramente que não conheço todos os meandros e simbolismos da festa. Mas devo declarar que o Moçambique sempre me encantou. Nunca dão as costas à Rainha e ao Rei e tem o ritmo mais gostoso de todos. Ao menos aos meus ouvidos. Desde criança aprecio os passos, o ritmo e a dedicação. Mas alem do Moçambique é importante lembrar que, na época da escravidão e pouco depois dela (talvez um pouco ainda hoje), branco não fazia batuque. Portanto, o Reinado é uma festa nascida nas senzalas e quilombos. O que faz com que esse evento seja culturalmente ainda mais rico, já que vem de um povo que foi, apesar dos pesares, capaz de manter cultura e tradição - mesmo que adaptadas - ao longo dos seculos.
Meu avô era capitão de corte. Sim existem patentes “militares” dentro dos cortes do reinado. Quando ele morreu, todos os cortes se unirão ao cortejo que o levou ao cemitério. Esse ano, um dos cortes Moçambique foi até a casa da minha avó para cantar bênçãos à casa e a ela. O capitão do corte havia sido soldado do meu avô. Ela chorou de saudades, dizendo que gostaria que ele estivesse ali.
Cultura e tradição. Família, passado e história. Como constituir-se sem isso? Como ser, sem tradição? Como crescer, sem família? Como ter história, sem cultura? Tenho sorte de ser menina de capital com raízes de interior. Tenho um passado que me resguarda (e também me condena). Tenho história. Faço parte da cultura e tradição de uma cidade inteira. Isso me faz ‘ser’ (ser como verbo no infinitivo) no mundo.
Fazia alguns meses que não aparecia para visitar as matriarcas. Desta vez cheguei à cidade em dia de comemoração. Festa de Reinado e tem suas características próprias. É um tributo a Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Santa Efigênia. Festa bonita. De verdade. Em uma cidade de pessoas Católicas Apóstólicas Romanas (ou apenas católicos “postólicos”, como dizem por aqui) tal festa mobiliza a todos. Mas o que é verdadeiramente importante nisso tudo para mim, não é a religião, mas a tradição cultural. Em raros lugares vemos a festa como deve ser.
O congado é em Minas Gerais patrimônio turístico e cultural. Como tal, tem se mostrado um tanto comercial também. É sempre noticia de telejornal grupos de congado dançando e tocando fora de época. Perfeitamente ensaiado e gravado apenas e tão somente para ser exibido na tevê. Dança e música sem qualquer conteúdo folclórico e cultural verdadeiro, genuíno. Apenas uma atração jornalistica para o povo da Capital ( tão distante dessas coisas de interior) saber que ainda existem cultos e culturas, povo, passado e tradição. Isso sim patrimônio (independentemente de fé) de cultura, de força e de gente.
Mas deixa eu contar um pouco da festa. Mas vou usar a palavra Reinado ou invés de Congado. Dentre os grupos de reinado, existem os chamados de “Corte” e os "congas". Um grupo chamado Moçambique é o mais importante congo. Sua função é louvar São Benedito e Nossa Senhora do Rosário. Ele é composto comumente de negros e levam amarrados nas canelas os chocalhos que conduzem o batuque. Este corte é o responsável por buscar o Rei e a Raínha do Reinado, responsáveis por carregar as coroas. Não sou católica. Sequer sou cristã e admito sinceramente que não conheço todos os meandros e simbolismos da festa. Mas devo declarar que o Moçambique sempre me encantou. Nunca dão as costas à Rainha e ao Rei e tem o ritmo mais gostoso de todos. Ao menos aos meus ouvidos. Desde criança aprecio os passos, o ritmo e a dedicação. Mas alem do Moçambique é importante lembrar que, na época da escravidão e pouco depois dela (talvez um pouco ainda hoje), branco não fazia batuque. Portanto, o Reinado é uma festa nascida nas senzalas e quilombos. O que faz com que esse evento seja culturalmente ainda mais rico, já que vem de um povo que foi, apesar dos pesares, capaz de manter cultura e tradição - mesmo que adaptadas - ao longo dos seculos.
Meu avô era capitão de corte. Sim existem patentes “militares” dentro dos cortes do reinado. Quando ele morreu, todos os cortes se unirão ao cortejo que o levou ao cemitério. Esse ano, um dos cortes Moçambique foi até a casa da minha avó para cantar bênçãos à casa e a ela. O capitão do corte havia sido soldado do meu avô. Ela chorou de saudades, dizendo que gostaria que ele estivesse ali.
Cultura e tradição. Família, passado e história. Como constituir-se sem isso? Como ser, sem tradição? Como crescer, sem família? Como ter história, sem cultura? Tenho sorte de ser menina de capital com raízes de interior. Tenho um passado que me resguarda (e também me condena). Tenho história. Faço parte da cultura e tradição de uma cidade inteira. Isso me faz ‘ser’ (ser como verbo no infinitivo) no mundo.

